Reino Subterrâneo
nov 28th, 2009 by jessebarbosa27
Meus olhos enxergam,
No âmago do macrocosmo urbano,
Retas metálicas e flocos de opulenta luz fulgurando.
No âmago do macrocosmo urbano,
Meus olhos contemplam
Sóis cerebrais sob capacetes e mãos em luva
Erigirem vivendas, trilhos, fibra ótica, aluminióticos dutos
Megastores, metrôs, trens-bala, bélicos hotéis de luxo:
Uma verdadeira réplica subjacente
Do superno mundo vivente
Que continuamente se transmuda.
Contemplo o árduo laborar glorioso destes artífices anônimos
Do viés recôndito da face da vida citadina:
Vejo gente alegre, quacre, tímida, tristonha
Vejo gente egrégia, cansada, íntegra, risonha
Vejo gente amarga, acre, doce, incauta e lancinante opala oceânica
[de incessantes lembranças
Vejo gente que traz consigo imensuráveis caminhos doídos de errância
Vejo gente montada no dorso auspicioso daurora
Vejo gente que segue o fluxo do córrego da estrada
Longa, sádica, morosa
Vejo gente se desvanecer para sempre como mais uma presa
Nas garras do renque do empedernido inverno da selva de cimento
Vejo migalhas de caviar na boca dos moribundos da mental seca,
Amaldiçoados por serem inconscientes de sua iminente falência
Vejo, afinal, gente. Gente em sua mais sublime e ordinária essência.
Gente fazedora da arcana alameda majestosa:
Onde a couraça da contraluz esconde
O estadão, a florescência arbórea da esmeralda, a tão almejada prata!
Ah, meus queridos vitalícios detentos da antropocêntrica faina,
A vocês, tristemente, minha voz profere sua baldia fala:
Pobre gente. Pobre gente, filha da atroz auréola da desgraça!
Ah, o que sei.
Sei que lá embaixo há todo um universo…
Lá embaixo há toda uma nação de chagas abertas, inflamadas…
Lá embaixo há relíquias, realejos e trovas telúricas na memória…
Lá embaixo há Favelas, Roças, Minas, Bahias, Pernambucos, Cearás
[Paraíbas, Amapás, Brasílias, Curitibas, Corumbás, Linhares,
Itabunas, Restingas…
Lá embaixo o sonho de repisar o chão de sua Terra
Move uma infinita legião de operários eremitas…
Lá embaixo a bruma é lume que sempre pereniza…
Lá embaixo o ocaso prematuro é comensal insone,
Um recalcitrante conviva…
Lá embaixo aflora uma aura em espiral
Que, enleando almas amigas do fugaz retiro,
Quebranta as monumentais geleiras do hermetismo
E edifica a ponte irmanatória da generosa troca de dolentes vivências.
Finalmente, lá embaixo,
Os oprimidos sofrem uma metamorfose formidável:
Eles viram Cézanne, Portinari, Matisse, Oscar, Drummond, Michelangelo
Monet, Rembrant, Frida, Dali, Cabral, Gullar, Otávio, Van Gogh, Picasso,
Pois com seus pincéis calejados pintam o novo capítulo
Da civilização contemporânea.
Sim, Jorges, Juvenais, Damascenos, Marcos, Antônios, Firminos,
Ricardos fazem vicejar a imponência das novas
Esconsas urbes humanas.
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