Fé e História
nov 17th, 2009 by nicomedina
Fé & História
Por Ivani de Araujo Medina
Fé travestida de História não dá. Pelo menos, para quem gosta mesmo de estudar o assunto. Não é novidade que a História, há muito, é utilizada como um instrumento de favorecimento ideológico. O porquê disso é a questão a ser cogitada neste artigo.
No segundo século da Era cristã, a fé era o motor da nova cultura (cristianismo) e também uma novidade. Como a razão continuava em alta nos meios cultos da época, somente depois da vitória da nova cultura - no quarto século tanto a História quanto a arte se viram na condição de colaboradoras compulsórias para o bom desempenho da fé. Os primeiros símbolos cristãos aparecem nas moedas como instrumento de propaganda, desde 315. As últimas representações pagãs desaparecem em 323. É importante que se diga que antes disso - a partir do segundo século - já se tentava fazê-lo com a História. Assim sendo, viemos pela estrada do tempo fazendo valer um discurso literário comprometido com a nova cultura, no qual se confundem propositalmente alhos com bugalhos.
Para muitos, a Bíblia é a palavra de Deus e um documento histórico, ou seja, tudo que ali está é literal. Todavia, pretendendo abordar o que ali não está e é igualmente História. Por exemplo: não existe nenhuma referência histórica à cerimônia de doação do Antigo Testamento, pelos judeus aos gregos. Se isso não aconteceu, de que modo o Novo Testamento foi se juntar ao Antigo? Afinal, gregos e judeus se odiavam.
O Antigo Testamento (política religiosa judaica) e o Novo Testamento (doutrina ideológica cristã), juntos na Bíblia, nunca nos causaram espanto, porque fomos, desde cedo, acostumados a vê-los assim, preservados da crítica no abrigo do sagrado. O termo Bíblia é uma forma enganosa de convencimento, por não se tratar de uma obra cuja inteireza justifique a importância que esse termo alcançou. Pelo contrário, nela estão evidentes o conflito e o confronto instigados pelo anti-judaísmo do Novo Testamento, nos 25% que lhe cabem.
As palavras mais autênticas do Senhor dos Evangelhos não são as palavras judaicas, mas sim as não-judaicas e as antijudaicas. (STAUFFER cit. por LÄPPLE, 1973, p. 84)
Essa união de duas obras antagônicas, formando convenientemente uma terceira, sob um único título (Bíblia), antes de qualquer outra possibilidade interpretativa, é a prova material da cobiça (do valor pedagógico) do alheio. O Antigo Testamento ali está como o espólio de uma guerra cultural da qual não se deu notícia. Pouca gente sabe disso.
Poucos também percebem que o Deus dos dois testamentos é produto de concepções diferentes: no Antigo é um ser físico, no Novo é um ser abstrato. Isso leva a conclusão de que a compreensão do que sejam o judaísmo e cristianismo ainda não foi historicamente assimilada. A dificuldade decorre do fato de que muita propaganda religiosa ainda se passa por História. Obviamente, os mais sinceros teorizam sobre o ignorado.
Portanto, é expressivo sublinhar que a nossa cultura ocidental não é judaico-cristã como se diz. É heleno-judaica. O primeiro nome (heleno) indica a origem, como nipo-brasileiro, ítalo-americano, greco-romano etc. O cristianismo não é continuação e nem reforma do judaísmo, como se faz acreditar. São muitíssimo diferentes. Portanto, a história é outra.
O professor Richard Elliot Friedman, titular de hebraico e literatura comparada, na Universidade da Califórnia, doutor em teologia por Harvard e membro do Bilblical Colloquium, entre outras qualificações, em sua obra, O desaparecimento de Deus: um mistério divino, deixa entrever que a Bíblia hebraica é uma versão censurada, e, nela, a idéia da presença física da divindade entre os humanos foi desaparecendo nos livros seguintes ao do Gênesis. A interferência direta da divindade vai sendo substituída por visões ou sonhos, até atingir a total abstração pela ação indireta dos profetas, que passam a atuar como intermediários da vontade divina.
Deus desaparece na Bíblia. Leitores religiosos e não-religiosos por certo irão achar tal afirmação surpreendente e intrigante, cada qual por suas próprias razões. Confesso, de minha parte, que a acho estarrecedora. A Bíblia se inicia, como todo mundo sabe, num mundo em que Deus está ativamente e visivelmente envolvido, mas não é assim que termina. (FRIEDMAN, 1997, p. 19)
Outro judeu mais conhecido, Albert Einstein, em sua obra Como vejo o mundo, diz o seguinte:
O judaísmo não é uma fé. O Deus judeu significa a recusa da superstição e a substituição imaginária para este desaparecimento. Mas é igualmente a tentação de fundar a lei moral sobre o temor, atitude deplorável e ilusória. Creio, no entanto, que a possante tradição moral do povo judeu já se libertou deste temor. Compreende-se claramente que servir a Deus equivale a servir à vida. (EINSTEIN, 1981, p. 114)
Acrescento, por minha conta, que servir à História equivale (também) a servir à vida.
O motivo de tanta confusão sobre a idéia de Deus vem daí, e desaparecimento é a palavra chave. Quantos documentos desapareceram no correr da História para que outra história se firmasse em seguida. Se, também por isso, a verdade histórica é difícil de ser afiançada, ao contrário, a falsidade histórica sempre foi facilmente identificada. As fraudes pias são velhas conhecidas dos historiadores e pesquisadores de todas as tendências. No entanto, continuam-se batendo nas mesmas teclas amareladas das antigas fraudes, tentando justificar o improvável.
A ideologia da fé defende a tese de que o homem precisa ser enganado para reagir positivamente. Enquanto isso não se esclarece, errados sãos os que reclamam das omissões da História e aspiram pela verdade (ou pelo o que se pode depreender dela) a ser ensinada nas escolas e universidades públicas, sujeita a novas abordagens por causa da efetividade da pesquisa em todos os níveis.
O avanço tecnológico vem facilitando e dando maior confiabilidade ao exame das histórias antigas. Em vista disso, o futuro da parceria entre a fé e a História parece estar com os anos contados. A persistência e determinação da cultura dominante sugerem a existência de um bom motivo além das causas discerníveis. O que será que se coloca por trás dessa ocultação chamada mistérios de Deus? Tanto zelo não há de ser à toa.
Será que estamos nesse mundo como descendentes de colonos avançados ou de degredados mesmo, sem saber? Será que a fonte das nossas mazelas estaria na disputa entre a natureza herdada dos nossos criadores e a nossa natureza terrena? Seria a destruição do planeta uma conseqüência dessa disputa ás cegas? Será que a luta entre o Bem e o Mal se resume nisso? Muitos são os serás a se experimentarem no quarto escuro criado pela religião. Tomara que em breve as luzes se acendam.
Por enquanto é a ideologia da fé (a vencedora) que dá as cartas. Certamente, a exata identidade da religião ainda não foi revelada para quem aprecia verdadeiramente a História. Ninguém gosta de ser feito de bobo. Este é um assunto que diz respeito a todos, religiosos ou não. Sobretudo aos jovens estudantes de História e futuros historiadores (as), aos quais eu gostaria de lembrar: quando a gente sabe o que procura, os livros acabam contando.
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Bibliografia
LÄPPLE, Alfred. As origens da Bíblia. Petrópolis: Vozes, 1973.
FRIEDMAN, Richard Elliot. O desaparecimento de Deus: um mistério divino. Rio de Janeiro: Imago, 1997.
EINSTEIN, Albert. Como vejo o mundo. 10 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
MEDINA, Ivani de Araujo. Jesus Cristo um presente de gregos. http://www.ebooksbrasil.org/ 2009.